por Karina Garrido Silemen Campos
Escrever um prefácio ao primeiro livro de um poeta é uma honra. E também uma tarefa árdua. Honra por fazer parte de um momento importante, árduo pelo mesmo motivo. Mas, também pelo pavor de tecer definições, de escrever certezas, que são, simples e honestamente, impressões de uma leitora ávida, constante e participativa.
Participativa, sobretudo. Afinal, tive o privilégio e a dor de participar de todo o processo criativo, da construção de poemas, dos encontros em saraus, dos desencontros, das leituras na madrugada insone.
Partindo deste dado, de que participei do processo, peço ao leitor que segure minha mão e caminhe comigo por estas páginas. Tentarei ser um lampião para você.
O Pirilampo, assim no singular, não parece, em um primeiro momento, dar conta da pluralidade que você vai encontrar nos poemas. Acho até que Pirilampos seria mais apropriado. Afinal, por se tratar de um livro que reúne os primeiros escritos do poeta, percebemos que foram muitas suas fontes de inspiração e estudo ao longo do caminho, resultando em uma diversidade de combinações, temas e estilos. Nas minúcias de seus versos, podemos perceber cada nova leitura, cada descoberta, cada evolução em sua maneira de pensar, de sentir, de olhar, de perceber o mundo e também, de escrever.
Os versos denunciam que o poeta esteve sob influência direta de substâncias literárias e musicais no momento de composição de sua obra primeira. Sentimos o aroma dos marginais brasileiros, dos beats americanos e também dos músicos de jazz. Mas, não se preocupe, leitor. São apenas influências. O que foi construído a partir delas é original e ancorado na realidade de nossos dias. Você verá, assim como eu vi, a evolução de seu processo de escrita e de seu estilo. Em uma inteligente antropofagia, o autor reúne a experiência pessoal, o engajamento político e social, a espontaneidade e o improviso para a construção da base de sua poética, aliando ainda imagens singulares, que evidenciam o olhar sensível e afinado do poeta.
Ainda sobre o estilo, em algumas páginas, encontramos estrutura bem definida, com rimas e estrofes delineadas por um ouvido atento. Em outras, encontramos versos espontâneos e livres que refutam qualquer forma de organização mais rígida.
E isso tudo, leitor, é muito primoroso. Ler Pirilampo é uma tarefa deliciosa e também pungente. Se não tomarmos a distância necessária, podemos pensar que o poeta está falando conosco. Será?
Essa ideia vai nos acompanhar por todo o livro uma vez que, ao mesmo tempo, o eterno e o fugaz se encontram nos versos, cada evento cotidiano é elevado a acontecimento que pode beirar o eterno, o sublime.
Tudo é passível de se transformar em poesia na ponta do lápis de Roger Willian, naquele caderninho marrom dos rascunhos. Encontramos notícias, belezas, tragédias, eventos banais… poesia em que até mesmo o pão francês é elemento poético, metáfora de um relacionamento em seu início.
E é importante dizer que já não acho mais que o título do livro deveria estar no plural. Afinal, todos os universos de que fazem partes seus poemas se abraçam e se entrelaçam, em um verdadeiro bebop prodigioso.
E agora, leitor, a luz deste lampião que te acompanha se apagará. Mas, não se preocupe. Ao virar a página, encontrará a luz humilde e celeste do Pirilampo e fará o seu próprio caminho.
E parafraseando o poeta em questão, ficam alguns versos:
como uma professora
ao apagar o quadro negro
Fica esse pretenso
prefácio ao meio.