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Impermanência de um poeta

Por Íris Cavalcante, poeta cearense*

 

Poeta não tem gênero. Poema também não. A desconstrução dos papéis binários no que diz respeito à sexualidade e gênero é um exercício, também, da criação poética. Os sentidos postos na obra de muitos artistas, como, por exemplo, em Chico Buarque, deixa este lastro de representatividade, quando ele emerge da fala da mulher. Chico tematiza a figura feminina, em canções que nutrem o nosso imaginário com metáforas e simbologias. Assim também faz o poeta Daniel Perroni Ratto, em Ferrabraz. Ele começa se impondo numa assertiva desobediência ao patriarcado, citando Pagu, que por sua vez, me remete ao saber e sentir da Hilda Hilst: “Se me proponho ouvir. Vem do Nada. Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.” Não pretendo, aqui, tecer teorias literárias sobre o texto de Ratto, muitos menos reafirmar ressentimentos históricos, mas deixo clara minha satisfação ao lê-lo, a partir de uma perspectiva feminina. Leitora persistente que sou, eu também procuro o divergente e acho a poesia. Em Drummond encontro:

Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.”

Do seu Grinalda de um Poeta à Ferrabraz, conhecemos um poeta em sua impermanência, ora construindo, ora desconstruindo estilo, ritmo e identidade. Então, tenho o prazer de estar diante de uma obra escrita por um homem, mas abordando, com desenvoltura, a leitura dos feminismos nossos de todos os dias e do nosso “estar no mundo”.

Em Ferrabraz, o sujeito do discurso é a mulher, e Ratto constrói essa tessitura, reivindicando o feminino do seu eu lírico. Além do mais, temos a percepção de uma voz poética que demanda as questões da nossa época e subverte a narrativa gritante das violências de gênero. O poeta troca um lugar de masculinidade dita “confortável” (ainda que redutora) por um exercício de alteridade, um relato onde o autor faz uma imersão no feminino e retorna à superfície, a partir de seus amores e suas ancestrais, da citada tia Mirtes, da avó Dagmar, da poeta Laís, edificando uma potente homenagem às mulheres da sua vida.

Era uma lua minguante das mulheres fortes

Das bruxas queimadas na Inquisição

E os tons de azul de um universo místico

Faziam-me imaginar suas aventuras e sortes”

Olhar atento ao detalhe – como deve ser o fazer poético – das mulheres fortes às bruxas em tons de azul, da catarse à introspecção, do realismo à subjetivação da poesia. A palavra não pertence ao poeta, palavra é pertencimento de quem a encontra. Benditos sejam os que se apropriam do sentido transgressor e transformador da palavra, nessa geografia árida de afetos e supressão dos respeitos essenciais.

A mulher, essa vítima de saqueios, assombros, violências, injustiças, ocupa seu lugar de força conjuntiva na poética de Ratto. Aqui, a mulher se ressignifica e reclama o direito de existir. Embora num mundo pensado e executado no masculino, feito “por eles” e “para eles”, sabemos quando somos complacentes “com eles”. Sim, poeta, não queremos ser guerreiras nem mártires. Muitas de nós somos poetas também, ou musas, ou operárias, ou doutoras, ou subversivas, mas queremos sempre a ocupação legítima dos nossos espaços de voz e poder – como bem compreende a sua escrita.

Consta que o autor foi buscar o título Ferrabraz na Europa medieval e no Nordeste da avó Dagmar, estimulando o imaginário de seu leitor e leitora, numa escalada épica, em entrelinhas, entretextos, entretempos, entrepoemas, intertextualidades e referências, fazendo o percurso desde tempos imemoriais das bruxas da Idade Média, passando por tribunais inquisitivos, ideologias eugenistas, religiosidades – seja qual for o recorte da História, para aportar, enfim, nessa contemporaneidade que passeia entre luz e sombra, cansaço e rebeldia, conformismo e revolução. Estamos deixando um passado recente de trevas e vislumbramos, hoje, uma nova conjuntura, com justiça social, igualdade de direitos e reparação de injustiças históricas.

Assim como a avó do poeta, saída do sertão do Ceará, continuamos nossas lutas diárias por direitos, até mesmo o direito óbvio de decidirmos questões íntimas com relação ao nosso corpo político e combativo: templo das nossas inscrições e memórias, propriedade unicamente nossa e inalienável.

Não há como separar o poeta do seu tempo e do território que o habita, assim meio entre o sertão do Ceará e a Paulista, entre o semiárido e a garoa:

Venho do Ceará,

do sertão, do cangaço,

da flor do mandacaru.”

 

Repetidamente, digo que o poeta ou qualquer um que use a palavra como ofício, para demarcar, seja sua aldeia, crenças ou desassossegos, tem que usá-la a serviço de uma coletividade e de um tempo; a palavra como instrumento de denúncia, de preservação da memória, para depois, interpretarmos a história com o distanciamento necessário.

Ferrabraz é um registro para ser lido e argumentado a partir das inquietações e subjetividades do poeta que o compôs. Absurdemo-nos, pois, e façamos a revolução, nesse planeta inóspito, com a nossa voz lacônica, da calmaria marítima de um solitário quasímodo, numa Pauliceia desértica ou num sertão estéril.

Aquele canto inóspito

Aquela voz desértica

Aquele santo pérfido

Aquela tez lacônica

É só, sozinho, solitário

é calmaria, banho-maria, água-marinha

é nó, quasímodo, cavalo-marinho”

Te encontro no fim, poeta. Ou então, nada…

 

* Íris Cavalcante nasceu em Baturité-CE, a 26 de setembro de 1970. É Especialista em Escrita Literária pela FBUNI e MBA em Administração Estratégica pela Unichristus. Estreou na literatura em 2003 com Palavras e poesias, publicou O caminho das letras (2006), O sobrevivente (2011) e Vento do 8º andar (2017), livro finalista do Prêmio Jabuti 2018, na categoria, poesias. Participa de antologias de contos, crônicas, poemas e revistas literárias. É colunista da revista Tamarina Literária. Em 2020, estreou como compositora no CD do músico cearense Isaac Cândido, Pra visitar aldeias, com duas composições. Em 2021, organizou a antologia Crônicas de uma Fortaleza obscena e publicou o romance Por quem elas se curvam, Editora Rima Rara.