O Véu da Grinalda Mágica
Por Tavinho Paes*
"Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim."
(4º Motivo da Rosa – Cecília Meireles)
A Grinalda de Daniel Perroni Ratto é uma tiara feita de uma Poesia, que faz a cabeça das noivas e mexe com a cabeça dos noivos…
… não é só enfeite, é corôa que prende um longo véu de poemas que levam alguém apaixonado até um altar, onde estão posicionados com todo o protocolo desejado: um marido ansioso e ligado aos mais diversos movimentos sociais, numa cerimônia a ser oficializada por um padre que está plenamente de acordo com a Teologia da Libertação, de Leonardo Boff e Frei Betto, partindo da proposição de que o Evangelho tem, por função e mérito, a opção preferencial pelos pobres.
… assim, A Grinalda de Daniel Perroni Ratto, a cada página vai caracterizando que, tanto a Poesia quanto a Teologia – que nela condensa teleologias humanisticamente profundas e suficientes para serem sagradas, para pôr em marcha as escolhas de um Poeta, deve utilizar, como base para sua Dialética, o melhor das ciências humanas e sociais.
A Grinalda de Daniel Perroni Ratto, com seus versos de rosas e espinhos, completa um penteado de cabelos livres que sempre foram hippies, quando o assunto é Paz & Amor, face a qualquer novo Vietnã, seja ele local ou global…
… não é só uma diadema para adornar a cabeça de reis e rainhas, mas uma auréola de anjos rebeldes com liras em punho a embalar canções para ninar dinossauros, que cabe na cabeça de bardos psicodélicos, operários politizados, estudantes de maio de 68, revolucionários de alma resistente e rebeldes críticos com ou sem causa.
A Grinalda de Daniel Perroni Ratto, despetala rosas de cores tão inusitadas quanto os sóis azuis e lilases de Van Gogh, colorindo realidades muito duras, expressas em jardins desenhados como os labirintos dos palácios austríacos; formatados sob contingências próprias para que uma Primavera de Praga, supere a solidão do poder de um Outono do Patriarca…
… e o Poeta, diante da violência desumana das diferenças sociais, associadas aos recalques traumáticos que cada um guarda dentro de si, enquanto busca de um potente Dérèglement de tous les sens, injeta, com a firmeza da pedra que David pôs na funda, uma rosa de prata, no cano cromado de uma arma, apontada para sua cara.
A Grinalda de Daniel Perroni Ratto revela uma ação inusitada: enquanto o noivo põe o anel no dedo de sua amada, ela, num ato de soberba elegância, retira cuidadosamente sua tiara florida e a instala no topete que o noivo fixou com Gumex para a cerimônia planejada…
… não é só um casamento entre a Poesia & o Poeta: essa Grinalda Mágica, de versos afiados na lâmina de uma navalha, defende o direito ao divórcio, ao mesmo tempo que reúne casais inusitados e diz SIM, antes que o padre faça a pergunta fatal da homilia dedicada ao matrimônio.
A Grinalda de Daniel Perroni Ratto, para que não digam que ele não falou das flores, é arranjada cuidadosamente com rosas iguais à Rosa Meditativa, de Salvador Dali e está tão nua quanto O Nu Descendo a Escada.
… é uma Rosa Polar tão despetalada como o Pêndulo de Foucault.
A Grinalda de Daniel Perroni Ratto é feita com flores que exalam um perfume insistente como o dos incensos nos templos hindus, dedicadas para que todos percebam que, ao contrário do que imaginam, possuem, em si mesmos, olfatos raros.
… cheira forte.
Tavinho Paes nasceu e vive no Rio de Janeiro (RJ). É autor de mais de cem booklets, como chama seus livros editados de forma independente. Paes também foi um dos fundadores do projeto CEP 20.000 (sarau carioca realizado há mais de duas décadas), acompanhado de Chacal, Carlos Emílio Lima e Guilherme Zarvos. Como letrista, fez músicas como “Totalmente demais”, “Rádio Blah” e para artistas como: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Rita Lee, entre outros. – 10 de março 2021