Lucas Lima, o inferno sou eu mesmo.
Despi-me de memória, afeto, querer bem, pois muito lhe quero bem, há muito. Desde 2000, quando nos encontrávamos na oficina de literatura em Diadema. Sempre o admirei, me inquietava sua inquietação, sua graça, sua curiosidade.
Aquele grupo era precioso. Distinguiam-se. Lucas se distinguiu, o acompanho pelas redes sociais. Vibro.
Este é o seu segundo livro.
Ler Epithymia, de Lucas Lima, pode exigir de nós uma certa coragem.
Vocábulos raros, erudição, temas que lembram os poetas malditos… ou a maldição destes tempos. Enfim, uma poesia nada fácil, que nada concede.
Mais da metade lida, em várias formas e menções, as metáforas obsessivas persistem e intensificam o caráter noir da obra. Convivem e se superpõem os males deste tempo obscuro. Cantados com subjetividade extrema e extrema entrega: o medo, a neurose, o racismo, o esquecimento, o estranhamento de si mesmo, a desindividualização, o autoflagelo, a autoaniquilação. Quando estes temas não estão expressos claramente, os captamos então, na busca do poeta pela escuridão, onde não se vê, os sentimos no enlevo pela noite e pela embriaguez. O poeta anseia submergir no esquecimento de si mesmo.
Tudo aos pedaços, cuidadosa e no mais das vezes laboriosamente representado de forma poética.
Nas investidas sensuais, como em “Abocanha-me”, ao leitor dá-se a liberdade de enveredar por um torpor macunaímico, agradavelmente satírico, quase necrófilo, e ainda assim lírico “(…) Vampiriza-me o sangue/ Beba-me o pus e o suor/ Da saliva ao plasma/ Deixa-me exangue.(…). Degluta ao limite máximo/ Dessa insólita iguaria/ Antropofagia/ Mesmo que tardia/ Abocanha-me.
Um dos escritos sobre sua autodefinição mais delicado é o poema “Eu”: “… sempre pronto para um som ou imagem que me encante”(…) “Eu que me distraio com inúmeros estímulos/ Pinturas íntimas de mim mesmo/ Emuladas em trêmulas palavras/ Eu que me traduzo, tão confuso, / Que mais parece foto imagem/ Desse meu caos, do que/ Exatamente tradução.”
Em certo momento de distração, que costuma acontecer na leitura de um livro de poesia, Lucas Lima nos resgata e domina sob uns poucos poemas que concedem uma pausa para respirarmos mais tranquilos. Mais curtos, sem rima, são poucos, mas com versos de forte incisão poética:
“Por mais que me fira/ Devo trocar de pele”.
Em “Nuit”, a universalização de seu pior mal, ele mesmo: “Que saibamos transbordar o contido suspiro e gemido. Que saibamos, num olhar, abarcar o profundo escuro da madrugada. O intacto obscuro de nós mesmos”.
O grito ancestral e inaudito contido nas grandes obras, das clássicas às contemporâneas, o “obscuro de nós mesmos”, esse tormento da condição humana, que nenhuma ciência, nenhuma filosofia, nenhum mito, nenhum deus jamais esclarecerá, a que jamais se dará sentido, e que o poeta nos oferece como um brinde, em um tempo em que nada mais faz sentido.
Ainda bem. Ah, não fosse a poesia, o que seria de nós!
Obrigada, Lucas Lima. Não pare, nunca.
Beth Brait Alvim